Experiências

Posts em inglês em 3…2…

Desde o começo desse blog pensei se não deveria escrever posts em inglês. Naquela época a resposta foi NÃO. Era realmente um experimento pequeno (ainda é, mas era menor ainda) , que era direcionado aos meus colegas de trabalho e depois foi ampliado aos desenvolvedores brasileiros iniciantes. A ideia era atingir um público alvo menor. Bom, a minha ideia de direção mudou. Os posts estão ficando mais avançados e gostaria de ampliar esse público alvo agora. Por isso, decidi que escrever em inglês é uma boa para ampliar meus horizontes. Alguns amigos já haviam me sugerido fazer essa transição, mas como estava sem blogar por um tempão mesmo, decidi deixar isso no prego.  Obviamente, grande parte dos desenvolvedores nacionalmente e internacionalmente conhecidos blogam em inglês pelo mesmo motivo. Enfim, motivos para fazer isso não faltavam. Me faltava para tanto.

Além disso, vou tentar escrever posts menores, mais concisos e em linguagens diferentes do Java, tipo Ruby, Scala, Lua e Javascript. Agradeço aos leitores que se tornaram surpreendentemente mais do que eu esperava! =D.

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Desenvolvimento Web, Design, Design Patterns, Experiências

MVC não é sobre camadas!

– Como você separa as camadas do seu sistema?

– Ah… Sistema Web eu uso MVC mesmo.

Apesar de pouco tempo de carreira, já ouvi respostas como essas de tuia. Desenvolvedores graduados, mestrados, doutorados, verdadeiros alquimistas (note o tom irônico) argumentando que MVC é um padrão arquitetural onde você divide seu sistema em camadas, sendo elas: Model, View e Controller.  E, logo, se você utiliza MVC não há espaço para as camadas mais tradicionais: Apresentação, Negócios e Persistência. A verdade é que esse argumento é tão infundado quanto errôneo.  Apesar de achar essa confusão um tanto quanto natural (afinal eu já fiz essa confusão também), entendo porque ela existe. A sigla MVC tem sido “passada” para os aprendizes de desenvolvimento de software como… justamente, um sigla. Não é explicada a origem do padrão, nem a definição formal do que é, nem tampouco onde ela deve ser aplicada.  Enfim, não vou nem me delongar muito sobre o porquê da confusão, mas antes, pretendo esclarecê-la. Primeiro, vamos ver um pouco sobre a origem do MVC e sua definição.

O que danado é MVC ?


MVC é um padrão arquitetural originalmente criado em Smalltalk no fim da década de 70 que teve por objetivo inicial trazer simplicidade ao manipular interfaces  gráficas.  O que simbolizam essas letras?

M: Model. É o modelo de negócio da sua aplicação. Suas classes básicas, seus Services, o que quer que você utilize e seja particular do seu domínio. Seria o core da sua aplicação. Classes como Conta, Banco, classes de repositórios (não confundir com DAOs), classes de serviço, as exceções específicas do seu domínio e  classes utilitárias do domínio se encaixam no ‘M’ de Model, ou modelo.

V: View. É a parte responsável por mostrar visual para o usuário. O objetivo da View é mostrar o estado atual do seu modelo. É papel da View saber quando o modelo foi mudado (o modelo também pode notificar a view da mudança, apesar de eu não gostar desta versão), de forma que ela possa refletir isso de forma plena. Todos os componentes gráficos estão incluídos nessa categoria. E por componente eu não quero dizer classe, por exemplo, JSPs são views. Também arquivos html, javascript, swf, além de classes que tratam de interfaces gráficas – Actions da vida em ambiente web e TelaCadastro ou TelaLogin em ambientes Desktop etc.

C: Controller. É a parte mais inteligente desse padrão. É responsável por tomar a decisão “para quem devo direcionar, dado que o usuário propagou esse estímulo”. Por exemplo, uma classe ‘Controller’  recebe uma requisição do usuário e, baseada nessa requisição, decide qual view será mostrada para o usuário. Em ambientes Web essa classe faz o papel de “Front Controller”, que já é outro padrão arquitetural.

Já vi muito, mas muito mesmo, ocorrer a confusão entre Controllers e Controladores. Controller é completamente diferente de Controladores de objetos de domínio. Controladores são parte do domínio: realizam serviços utilizando classes básicas e suas dependências.  São Model. Controllers não devem fazer parte do seu domínio. Alguns colocam como View e em alguns casos utilizam como parte da camada de aplicação. Certa vez,  decidimos não utilizar esse nome confuso, mas o sufixo “Service” para nomear as classes que realizavam operações nas classes básicas. Mais tarde, um dos líderes técnicos disse que tinha uma observação a fazer. Ele incentivou a equipe a prezar por código de qualidade, porque no nosso sistema estávamos manipulando objetos de negócio diretamente na “Camada de View” sem passar pela “Camada do Controlador”. Um verdadeiro estupro. Claro que não o critiquei publicamente e não expus o comentário cheio de infelicidades, mas me limitei a esclarecer que os controladores estavam sim ali, apenas com sufixos diferentes. Também expliquei a diferença entre Controller e Controladores, e que aquilo estava causando confusão, de forma que todos ficaram satisfeitos.

MVC são apenas alguns patterns!

MVC na verdade tem por objetivo definir interações entre componentes do sistema e não agrupar componentes da aplicação, como muitos o entendem. Para entender isso, note que  MVC realmente é sobre design patterns (padrões de projeto). Mais especificamente – Strategy e Observer. Mais especificamente são 2 interações entre componentes:

1 – Quando o Model (Observable) muda seu estado, a View (um Observer) é notificada.

2 – Quando a View propaga alguma ação, como o Controller é o Strategy da View, a View delega ao Controller a decisão de “para que parte do Model notificar a mudança”. Esse Controller, por ser um Strategy, pode ser modificado em tempo de execução.

 

Interações são descritas por meio de Patterns.

Head First Design Patterns (Freeman & Freeman)

Estes são os 2 princípios fortes por trás do MVC. Alguns ainda dizem que existe um Composite limitado ao Model, mas isso é se prender demais a versão original do padrão feita em SmallTalk. Enfim, note que estas interações não dizem NADA a respeito de camadas. São interações ora essa! Ou seja, não é necessário você ter um componente View pra estar utilizando MVC, apesar de eu nunca ter visto isso acontecer na prática. Mas sim, você pode utilizar esse mesmo modelo de interações entre componentes de inúmeras formas diferentes, usando View ou não.  Também não é necessário estar usando Web pra utilizar MVC. De fato, originalmente MVC surgiu pra aplicações Desktop… Enfim, você pode sim utilizar o padrão MVC num sistema Desktop tipo um Swing do Java ou na sua aplicação Android ou Flash! Lembre-se, MVC é sobre interações entre componentes! Repita pra você mesmo: MVC não é sobre camadas! É sobre interações!


Tá, mas e a divisão por camadas que a minha avó me ensinou?


Camadas são utilizadas nas aplicações modernas para separar responsabilidades do sistema. Componentes com responsabilidades iguais ou similares ficam na mesma camada. Como já dito, numa aplicação Enterprise clássica por exemplo, temos Apresentação (componentes de interface gráfica), Negócios (classes básicas, services, helpers etc.) e Persistência. Imagine que essas camadas são empilhadas de forma que as que lidam com infra-estrutura estão na parte de baixo da pilha e as que lidam com interação com usuário estão mais acima. Nesse caso, teríamos de cima pra baixo: Apresentação -> Negócio -> Persistência. O ideal é que as camadas se comuniquem sempre com as abaixo e jamais com as acima delas:

Camadas separando responsabilidades

Camadas separando responsabilidades

Repare bem que agora estou falando de separar responsabilidades. MVC me provê 2 interações chave,  e eu as aplico onde quiser. Já separação por camadas me provê onde colocar os componentes, e eu faço interações como quiser. Inclusive posso utilizar… MVC! Não, esses 2 padrões não são auto-excludentes! Posso sim usar ambos na minha aplicação. E muitas fazem isso.

Uma vez definidas as camadas (sendo da forma tradicional ou não), eu posso agora olhar para as classes que interagem entre si, aplicar os patterns mencionados e estarei usando MVC. Utilizando os 2 padrões, normalmente a camada de apresentação fica com todos os elementos da View, e a camada de Negócios fica com o Model. O Controller não é tão simples porque é uma classe bem inteligente e exige bastante controle. Se sua aplicação for Web você “ganha ele de graça” com o framework que estiver usando ou com Servlets. Caso precise implementar, acho preferível colocar na camada de apresentação para não gerar dependências desnecessárias.

Conclusão

Jamais confunda esses dois padrões. MVC diz respeito a interações entre componentes, não quer dizer que a aplicação tem que ser web nem mesmo que precise ter uma View. Camadas separam componentes da aplicação de acordo com responsabilidades. Ambos os padrões são muito úteis como ferramenta para qualquer desenvolvedor, mas é necessário ter perspicácia para ver as coisas além do óbvio, além do que é passado por aí. Não force o uso destes padrões (nem de algum outro). Mas use-os com moderação, onde os benefícios deles fiquem bem claros para você e para o seu cliente. Eu gosto muito deste post do Phillip Calçado sobre MVC e da explicação deste livro.  Qualquer dúvida, postem comentários. Ah! E usem filtro solar! =]

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Experiências, Lógica

Quando a realidade esmaga a intuição

Suponha que você esteja num programa desses tipo porta dos desesperados. O apresentador lhe convida a participar do jogo que funciona da seguinte forma:

Existem 3 portas. As 3 estão fechadas de forma que você não consegue ver o que cada uma contém. Porém, uma delas esconde um carro como premiação e as outras duas um bode cada. A decisão de onde estará a porta com o carro é feita aleatoriamente. E depois de escolhida a porta, o prêmio é fixado a ela. Imagine que você (o participante) escolhe uma das 3 portas. Logo após você anunciar  sua escolha, o apresentador faz aquele suspense e abre uma das outras 2 portas, de forma que ele sempre deixa um bode sair. Agora você tem 2 portas: uma com o carro e uma com o bode. Agora o apresentador lhe faz a pergunta chave: “Você deseja trocar de porta ou continuar na mesma?” Qual seria a melhor decisão para você ganhar o carro? “Obviamente dá no mesmo. É  50% de chance de qualquer jeito…” Pois é. Fácil, né? NÃO! Por mais que a sua intuição clame desesperadamente para ser ouvida, a verdade é que, trocar de porta, nesse caso, dobra suas chances de vencer em relação a continuar com a primeira escolha. Mais especificamente, ao trocar de porta você tem 2/3 de chance de ganhar o carro.

 

The Monty Hall Problem


Esse problema,”The Monty Hall Problem”, ficou conhecido mundialmente após Marilyn Vos Savant publicá-lo em uma coluna sua numa revista de puzzles e matemática nos E.U.A. Os leitores da revista ao se depararem com o problema ficaram chocados com a resposta. E não eram pessoas do dia-a-dia ou alunos prevestibulandos, eram de fato Ph.Ds em matemática, doutores em estatísticas, cientistas renomados e etc. Estes enviaram cartas agressivas para a senhora Vos Savant em sua própria coluna, expondo o erro crasso que ela supostamente havia cometido. Eles argumentavam coisas do tipo

“Não vou nem mesmo perder muito tempo com a explicação do problema. Queira reconhecer seu erro e admitir que a resposta é 50% como nós dois bem sabemos…”

“Quer você mude sua resposta, quer não, a resposta é 50-50 de chance. Esse país já está cheio de ignorantes em matemática. Não precisamos do maior QI do mundo propagando isso. Que vergonha!”

Após algumas semanas de cartas e mais cartas, explicações e mais explicações, os matemáticos cederam e aceitaram a resposta de Vos Savant. “Quando a verdade se choca tão violentamente com a intuição” – disse ela – “as pessoas ficam chocadas.”

Paul Erdös (pronuncia-se ‘Erdish’), grande matemático húngaro, maior publicador de trabalhos na área, foi uma das pessoas que se chocaram com a resposta. E pior ainda: por não entender porque a resposta está certa. Aconselho esse livro, contando mais sobre essa e outras histórias.

 

O que danado isso tem a ver com programação ?


Bom, desafiei algumas pessoas no trabalho com esse problema a título de brincadeira. Como era de se esperar, todos responderam que a chance era 50-50 e protestaram veementemente quando eu falei que era muito melhor idéia trocar de porta. Experimente. As pessoas realmente enlouquecem com isso. É a intuição delas que está em jogo! Após muita discussão, foi feito um simulador em Java para provar que a chance era de 50%. Catch-22. O programa respondeu que era melhor trocar de porta, com aproximadamente 2/3 de chance de vencer ao fazer isso. Muito bem. A resposta passou a ser aceita, mas não se fazia ideia do porquê disso acontecer. Uns falaram em paradoxo, ainda outros em 2 respostas corretas, enfim. O programa que simulava o problema foi escrito de forma bem algorítmica, bem orientado a estatística mesmo e nada revelava sobre o insight da solução. Daí me veio a ideia de escrever um simulador com código orientado a objetos e bem fluente, de modo que o código se comunique conosco, dizendo o porquê de nossas chances aumentarem ao trocar de porta. Igual uma equação matemática ou um gráfico “falam” com a gente. Daí que surgiu a ideia do post. O ponto aqui não é recriminar as pessoas que não aceitaram a resposta do desafio, afinal de contas, eu também não aceitei de imediato.  Mas mostrar como a solução vem a tona facilmente se nos empenharmos em fazer um código que reflita o modelo de negócio de forma mais real possível. Isso se aplica ao Monty Hall Problem, ao jogo da velha que você fez no 1° período, ao sistema de GPS que você programou, ao sistema do seu banco e por aí vai.

Primeiramente, vamos entender porque a solução é realmente trocar de porta e depois vamos analisar como bom código, escrito com fluência, refletindo os requisitos do problema especificado, ajudam a entender a solução. Se você já leu até aqui, não pare agora 😉

 

Exagere sempre que puder


Sempre que você se deparar com um problema de lógica, uma boa abordagem é estressar o problema. Exagere. Tanto pra mais quanto pra menos, exagere! Claro, isso vai te ajudar a pensar não só no problema ali, mas em outras versões adaptadas do mesmo. Meio que estudando o problema olhando todos os seus lados assim como alguém estuda um cubo mágico antes de tentar completá-lo.

Vos  Savant fez isso ao dar a primeira dica da solução. Imagine que você tem, não 3 portas, mas 1.000.000 delas. Um carro e 999.999 bodes. Se o apresentador abrisse todas as portas exceto a 777.777, você trocaria bem rápido, não ? Esse primeiro argumento mata a questão. Porque se você diz que não trocaria, você está dizendo que a probabilidade de você estar certo na primeira vez que escolheu 1 entre 1 milhão de portas é a mesma que a probabilidade de você acertar agora com 1 entre 2 portas!  É danado né? Você ver o apresentador abrir 999.998 portas com bodes e ainda assim você achar que a sua porta tem um carro, e não a outra, a única que ele não abriu!

A segunda dica da solução é a mais simples, Marilyn Vos Savant desenhou todas as hipóteses possíveis e a conclusão vem rápido:

Possibilidades existentes

Se você não trocar de portas, você perde 2 em 3 vezes!

Analisando o problema com Orientação a Objetos


Como falei, o algoritmo feito inicialmente para o simulador era extremamente algorítimico: utilizando arrays, números pra representar portas, o main era o programa de auditório e por aí vai. É verdade que é bem mais rápido de se fazer se você quiser apenas provar que trocar é a melhor solução. Mas não dá pra ter insight nenhum da solução olhando pra um código não OO. Por isso, implementei um código bem simples em Java que possui uma representação mais realista. Temos assim, classe Porta, classe Participante e classe Show para retratar esse problema. Veja abaixo:

public class Show {

  private List<Porta> portas;

  private Participante participante;

  public Show(int quantidadePortas) {

    this.participante = new Participante();
 
    this.portas = new ArrayList<Porta>();

    for(int i = 0; i < quantidadePortas; i++) {
      this.portas.add(new Porta(i));
    }

    Porta premiada = sortearPorta();
    premiada.setPremiada(true);
  }

  public boolean simular(boolean trocar) {
    participante.escolherQualquerPorta(this.portas);
    abrirPortas();
    if(trocar) {
      participante.trocarPorta(this.portas);
    }
    return this.participante.getPorta().premiada();
  }

  public void setPortas(List<Porta> portas) {
    this.portas = portas;
  }

  private Porta sortearPorta() {

    int numPorta = sortearNumero(this.portas.size()-1);

    return this.portas.get(numPorta);
  }

  private void abrirPortas() {

    Porta escolhida = this.participante.getPorta();

    Porta portaRestante = null;

    this.portas.remove(escolhida);

    if(escolhida.premiada()) {
      portaRestante = sortearPorta();
    }
    else {
      for(Porta porta : this.portas) {
        if(porta.premiada()) {
          portaRestante = porta;
          break;
        }
      }
    }

    this.portas.clear();
    this.portas.add(escolhida);
    this.portas.add(portaRestante);
  }

  private int sortearNumero(int maximo) {
    return (int)Math.round(Math.random()*(maximo));
  }

  public List<Porta> getPortas() {
    return portas;
  }

  public static void main(String... args) {

    int acertos = 0;

    int rodadas = 100;

    int numPortas = 3;

    for(int i = 0; i < rodadas; i++) {

      Show show = new Show(numPortas);

      boolean resultado = show.simular(true);
      if(resultado) {
        acertos++;
      }
    }

    System.out.println("Taxa de acerto: " + 100*(((double)acertos/(double)rodadas)) + "%");
  }

}

class Participante {

  private Porta porta;

  public void escolherQualquerPorta(List<Porta> portas) {
    int numPorta = (int)Math.round(Math.random()*(portas.size()-1));
    this.porta = portas.get(numPorta);
  }

  //Troca pela primeira porta que não seja a dele
  public void trocarPorta(List<Porta> portas) {
    for(Porta temp : portas) {
      if(temp.getNumero() != this.porta.getNumero()) {
        this.porta = temp;
        break;
      }
    }
  }

  public Porta getPorta() {
    return porta;
  }

  public void setPorta(Porta porta) {
    this.porta = porta;
  }

}

class Porta {

  private int numero;

  private boolean premiada;

  public Porta(int numero) {
    this.numero = numero;
  }

  public int getNumero() {
    return numero;
  }

  public void setNumero(int numero) {
    this.numero = numero;
  }

  public boolean premiada() {
    return premiada;
  }

  public void setPremiada(boolean premiada) {
    this.premiada = premiada;
  }

}

Esse é o código pra simular o resultado do problema proposto.  Por default ele está trocando de porta. Se você quiser testar sem trocar de porta basta modificar o parâmetro do método ‘simular’ para false.  Mas o propósito disso tudo é analisar esse código. Um princípio muito importante de desenvolvimento de software é a chamada “Divisão de Responsabilidades”. Cada classe tem um propósito, e apenas um. O mesmo é válido para métodos.  As classes acima possuem essa característica.  Por exemplo,  a classe Participante reproduz as ações que o participante fará durante o jogo: escolherPortaAleatoriamente() e trocarPorta(). Participante não sorteia porta ou simula o jogo de alguma forma. Quem faz isso é a classe Show, que representa o jogo como um todo.  Dessa forma, o código fica mais fácil de entender. Logo, a chave para o problema ser do jeito que é também fica na cara. Por exemplo, no problema citado, uma parte do código que me dá um bom insight do porquê da solução é:

 


Porta escolhida = this.participante.getPorta();

Porta portaRestante = null;

if(escolhida.premiada()) {
  portaRestante = sortearPorta();
}
else {
  for(Porta porta : this.portas) {

    if(porta.premiada()) {
      portaRestante = porta;
      break;
    }
  }
}

Se você observar bem, verá que esse método revela a intenção do apresentador do programa, digamos, a mente dele ao manipular as portas. Note que existem 2 portas que são escolhidas pelo apresentador para NÃO serem abertas: ‘escolhida’ e ‘portaRestante’. Ou seja, a porta escolhida pelo participante inicialmente e mais uma porta restante. Sempre teremos 2 portas ao final: uma delas é a escolhida pelo participante e a outra… bem, aí que está a ‘mágica’. Observe como a outra porta é escolhida para permanecer fechada. O apresentador do programa não escolhe por acaso! Veja que o método ‘abrirPortas’ tem acesso a informações a coisas que supostamente não era pra ter. Mas são regras do jogo! Logo, ele sabe o que está por trás das portas. Vou repetir: A classe Show tem acesso a informações encapsuladas em todas as portas – se ela esconde um bode ou um carro. Participante só tem acesso a porta que ele escolheu. Agora observe a forma como o apresentador pensa pra decidir que portas ficarão fechadas. O if-else é como se estivesse perguntando a si mesmo: “A porta escolhida pelo participante  é a premiada? Se for, vamos escolher qualquer uma outra pra ficar fechada. Caso a porta que ele esteja agora tenha um bode, abra todas EXCETO a que tem o carro.” Então há ganho de informação na passagem da primeira escolha pra segunda! E o apresentador sabe de tudo isso pelo acesso que ele tem às portas. Na primeira escolha, o participante tem 1/3 de chance de acertar. Mas na segunda, o participante deve antecipar que o apresentador sempre vai abrir uma porta com um bode. O ganho de informação se concretiza quando o participante realiza que ele está de fato trocando a chance de apostar em uma porta pela chance de apostar em duas.  E no código isso fica explícito na forma do apresentador decidir que portas serão abertas.

Ganho de informação? É. Tipo, caso um E.T aterrise no programa logo após o momento que o apresentador abriu uma porta e saiu um bode, e ele veja que existem apenas 2 portas, onde em uma delas está o prêmio, com certeza as chances serão de 50%. Mas aí que tá: ele não teve o ganho de informação obtido no momento da abertura da porta!

Modifique o atributo ‘numPortas’ no método main para 10.000 e veja como as suas chances aumentam. Isso corresponde ao primeiro argumento de Vos Savant para trocar de portas. Repare que a cada porta existente nesse caso, o apresentador irá pensar de forma a só abrir as portas com bodes. Ganho de informação multiplicado… Se eu fosse você, trocaria fácil!

Agora é com você… pronto pra colocar o Sérgio Mallandro no bolso?

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Experiências, Lógica

Números “aleatórios” – Random

Você já se perguntou como o Math.random() gera um número aleatório ? Já? Bom, eu me perguntava bastante. Tanto que um dia resolvi revirar o que havia por trás dele. Isso já faz algum tempo, mas de qualquer forma, é algo interessante pra postar aqui.

Antes de mais nada não podemos descrever esses números como aleatórios ou randômicos porque é 100% previsível o número que o Math.random() vai gerar. Tá, tudo bem. Pra quem não se apega a detalhes e acha que isso é apenas semântica, vai em frente e chama isso de aleatório. Mas eles não são! São pseudoaleatórios. “Pseudo” porque são previsíveis como já falei. Como assim previsíveis? Veja. Em computação, existem os chamados “Pseudo Random number generators” ou geradores de números pseudo-aleatórios. Esses são baseados em uma equação que, recebendo como parâmetro um valor numérico, retorna uma série numérica. Os números que compõem essa série são normalmente bem diferentes uns dos outros (primos, ímpares, primos entre si, múltiplos de 7, próprio zero e assim por diante), o que podemos dizer que a equação gera números randômicos. O problema é que com o tempo, essa série começa a se repetir.

Mas… peraí! É previsível o número que o Math.random() vai gerar? Hã… sim! Ora, é baseado numa equação. E java.util.Random utiliza LCG  (Linear congruential generator):

 

Equação LCG

Equação LCG

Obviamente existem outras equações pra gerar essas sequências. Inclusive Von Neumann mesmo inventou uma (não muito boa por sinal).

Vamos ver na prática agora, como o Random gera a mesma sequência “aleatória” numa aplicação bem simples:

<code>

</p>

<pre>import java.util.Random;

public class GeradorAleatorio {

    private Random random;

    public GeradorAleatorio(long semente) {
         random = new Random(semente);
     }

     public int gerarInt() {
          return random.nextInt();
     }

     public long gerarLong() {
          return random.nextLong();
     }

     public double gerarDouble() {
          return random.nextDouble();
     }

     public static void main(String[] args) {
           GeradorAleatorio gerador =
           new GeradorAleatorio(10);
           long l = gerador.gerarLong();
           System.out.println(l);
      }
}

</code>

Pode rodar o código quantas vezes quiser. A sequência gerada sempre será “-4972683369271453960” seguido de “4755622236989466036“. Como o Random trata pra te entregar um valor double mais “bonitinho” é outra história.

Enfim, a questão é que a gente acabou de ver que esses números são sempre os mesmos pra o mesmo valor inicial passado (ou seed – semente). Daí surge a pergunta: “Como gerar números imprevisíveis?” Bom, existe uma técnica bem comum que é passar o System.currentTimeMillis() como seed ou valor inicial. Como esse valor corresponde ao número de milissegundos passados desde 1970 pra o tempo atual, esse valor irá variar numa amplitude maior ainda. Tornando-o estatisticamente imprevisível.

<code>
    GeradorAleatorio gerador =
    new GeradorAleatorio(System.currentTimeMillis());
    long l = gerador.gerarLong(); 
    System.out.println("O long aleatório foi: " + l);

</code>
Agora pode rodar o código quantas vezes quiser que o resultado será sempre diferente. Note que em teoria, o número sorteado ainda é previsível. Imagine que o mundo congelou no momento que a semente é passada para o construtor da classe Random e você pôde ver que número foi esse. Jogando ele na equação, você poderia prever com 100% de certeza que número seria sorteado. Mas enquanto o mundo não congelar tendenciosamente para alguns, o truque está seguro.

public class GeradorAleatorio {

 

private Random random;

 

public GeradorAleatorio(long semente) {

random = new Random(semente);

}

 

public int gerarInt() {

return random.nextInt();

}

 

public long gerarLong() {

return random.nextLong();

}

 

public double gerarDouble() {

return random.nextDouble();

}

 

public static void main(String[] args) {

GeradorAleatorio gerador = new GeradorAleatorio(System.currentTimeMillis());

long l = gerador.gerarLong();

System.out.println(l);

}

 

}

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Experiências

Thoughtworks Brasil e outras histórias

Com a chegada da Thoughtworks no Brasil e o crescimento rápido da empresa, reparei que muita gente se pergunta como funciona o processo seletivo deles, se é igual ao processo nos E.U.A e na Europa, se é diferente, enfim, as dúvidas são muitas. Consultando o google, consegui encontrar alguns blogs que contam as experiências de alguns profissionais que passaram pelo processo seletivo da TW. Essas experiências ajudam bastante a outros que estão percorrendo esse caminho. Por outro lado, não encontrei nenhum blog em português falando sobre o assunto. Ou ainda, nenhum brasileiro contando a experiência de participar do processo seletivo da Thoughtworks aqui no Brasil. Pois bem, eis me aqui. O assunto desse post é basicamente as lembranças que tenho de ter participado no processo da TW e o que senti\guardei sobre a empresa.

Thoughtworks

Thoughtworks

Primeira Entrevista – Telefone


3 dias após enviar meu Curriculum em inglês para o email citado no site, recebi um email da recruiter me agradecendo o interesse na vaga e pedindo para eu me informar sobre a história, cultura e organização da empresa, pois dentro de alguns dias ela iria me contatar por telefone. Poucos dias depois, recebi uma ligação da recruiter da TW. Nesse primeiro contato, a recruiter estava interessada em saber como eu obtive conhecimento da vaga, o que eu sabia sobre a empresa, os valores da empresa que me chamavam atenção e etc. No email tinha sido pedido para estudar um pouco sobre a empresa, seus valores, objetivos e coisas do tipo, e eu aconselho que você realmente o faça para entender melhor como eles pensam software. Caso contrário, você pode parecer meio bobo nessa primeira entrevista. Ela também confirmou alguns dados que eu passei no CV (ferramentas, linguagens que conhecia, inglês fluente – que é essencial) e perguntou mais a fundo sobre a minha área de atuação. A última pergunta (e a mais interessante) foi: “Por que você quer trabalhar na Thoughtworks ?” Essa é uma pergunta tão previsível que chega a ser clichê em entrevistas de emprego. Mas essa foi interessante, porque nesse caso, trabalhar na TW é completamente diferente de trabalhar em qualquer empresa. E justamente por isso, sua resposta deve se basear nos valores da empresa. Por isso que eles ressaltam a importância de pesquisar mais sobre os valores e princípios da TW. Para checar se seus valores estão mais ou menos alinhados com a da empresa.

A recruiter foi bem gentil (como todo mundo que eu conheci lá) e claramente tinha a intenção de deixar a entrevista bem aberta. Muito mais uma conversa informal sobre meus interesses e habilidades do que uma entrevista formal de emprego. A impressão deixada após essa primeira entrevista é de que eles não estão brincando quando dizem que procuram “apenas os melhores e mais apaixonados por programação”. E caso você transpareça insegurança, falta de sinceridade ou falta de paixão/motivação, é pouco provável que eles entrem em contato novamente.

Desafios práticos


Assim que a entrevista terminou, a recruiter enviou por email 2 desafios de programação muito interessantes:

O primeiro deles era o problema conhecido como “Mars Rovers” e não é nem um pouco difícil de se entender. A questão aí não é se você é capaz de resolver. Mas como você vai resolver. O problema é bem simples e você não deve implementar uma solução de outro mundo, utilizando vários Design Patterns, sob a pena de perder pontos diante do avaliador. De qualquer forma, se sua solução for simples o suficiente, futuramente se eles pedirem pra você modificar ou adicionar features ao projeto, você vai conseguir fazer isso com um pé nas costas. Se você resolve querer impressionar logo de cara e implementar uma solução complexa, você pode se complicar na hora de modificar o projeto. É realmente uma questão de K.I.S.S – Keep it simple, stupid. Não vou divulgar o problema aqui (no google você encontra fácil), nem tampouco a minha solução. Acredito que se você sabe programar e é bom nisso, não precisa conhecer a solução de outros para fazer a sua própria. Além do mais, isso fugiria completamente do propósito do post.

O segundo problema é “Trains” e é bem mais complexo do que o primeiro. Enquanto o primeiro problema, por ser mais simples, dá mais liberdade para você utilizar várias abordagens de design diferentes, o segundo gira em torno de encontrar rotas existentes entre cidades num dado mapa. Basicamente, consiste de navegar através dos vértices de um grafo, encontrar o caminho mais curto entre dois vértices  e encontrar caminho mais curto passando obrigatoriamente por um subgrafo. Muito divertido de se fazer, porém mais difícil. É necessário um bom conhecimento de recursão e do algoritmo de menor caminho de Dijsktra para resolver todas as proposições do problema.

Escolhi o “Mars Rovers” por ser mais simples e, logo, mais fácil de modelar (coisa que eu adoro fazer). É possível você usar uma abordagem, depois desmanchar e usar outra, mesclar mais de uma abordagem, voltar atrás, mudar tudo… o escambal! É muito importante você ter um motivo sólido para escolher seu problema. E depois que escolher, dedique-se a solução! Pessoas que gostam de dizer coisas do tipo “eu fiz de última hora”,  “não tive muito tempo pra fazer” ou “se eu tivesse mais tempo, faria melhor” não são levadas a sério. Obviamente são meras desculpas (e são fáceis de detectar) usadas como válvula de escape caso o avaliador ache algum problema ou erro na solução. Pessoas assim revelam que são de fato inseguras e que não são motivadas o suficiente. Essa etapa é uma das mais importantes de todo o processo e você deve levá-la a sério pois eles levam a sério.

Após o envio do email com o enunciado dos problemas (em inglês), tive 3 dias para resolvê-los e enviá-los para a TW. Se você acha que não conseguirá enviar a solução em 3 dias, você pode enviar um email para a pessoa em contato (no meu caso, a própria recruiter) pedindo um tempinho extra. Eles são flexíveis quanto a isso, desde que você avise de antemão. São flexíveis também em relação a qual linguagem você prefere. Se você prefere Java, faça em Java, se prefere Ruby, faça em Ruby, se prefere Haskell, faça em Haskell. Mas lembre-se: não utilize uma linguagem que você não conhece bem só para impressionar os avaliadores. Os caras lá são muito bons e vão perceber se você não conhece bem a linguagem e quer apenas causar impressão. Mais uma vez você vai ficar com cara de bobo.

Assessments – and bring your brains


Algumas semanas depois de enviar meu problema, a Thoughtworks promoveu um evento chamado “Café Ágil” em Recife. Neste evento, palestraram Paulo Caroli, coach da equipe deles em Porto Alegre, e Jim Webber, consultor da TW em Londres (se não me engano). O objetivo era também chamar a atenção de mais candidatos as vagas abertas em POA. Enfim, nesse dia, à tarde, a TW organizou uma bateria de testes com os candidatos as vagas. Essa bateria é o que eles chamam de assessments e no meu caso foi realizada num hotel em Recife. Onde eles explicaram um pouco sobre a história da empresa, apresentaram a visão, o ideal e o ambiente da TW. De fato, todos que trabalham lá estão muito orgulhosos por estarem onde estão, num ambiente onde a criatividade impera. As pessoas que eles contratam são realmente muito boas no que fazem e, de quebra, muito gente fina. Sim, eles procuram esse traço nos candidatos. Nas palavras de um dos avaliadores: “We don´t hire jerks”.

Tá bom, agora sobre o assessment. Eu cheguei no hotel às 14h e logo começou a apresentação que eu mencionei acima. Às 14:30h estava começando a série de provas:

– A primeira prova é o conhecido Wonderlic. Esse teste é usado pela NFL (Liga profissional de futebol americano) para testar se os jogadores possuem uma pontuação razoável para jogar futebol profissionalmente (futebol americano é um jogo complexo e é preciso ser inteligente pra jogar – na maioria das posições). O teste consiste de 50 questões, que vão crescendo em complexidade de acordo com o número da questão (a questão 50 é a mais difícil), e é dado um total de 12 minutos para responder o máximo que você conseguir. As questões variam de assunto, podendo ser matemática básica, interpretação de texto, geometria básica, lógica e língua inglesa. Detalhe: o Wonderlic é em inglês assim como todos os testes no assessment são em inglês.  Você pode encontrar simulados do wonderlic aqui.  Segundo o wikipedia, existe uma média de acertos para cada profissão. Químicos tem uma média de 31 acertos. Programadores 29. Acho que é bom ficar dessa média pra cima.

– A segunda prova tem 7 questões de puro raciocínio lógico. Chega a lembrar uma máquina de Turing. Mas não é estudando Máquina de Turing e seus conceitos que você vai ser mestre nessa prova. Não, não. É lógica mesmo. Trata-se de um sistema de fluxo de controle, onde são dadas instruções e um fluxo para você sair seguindo de acordo com as instruções dadas e os resultados encontrados no fluxo. No fluxo existem estruturas de repetição, condicionais, “goto” e etc.  No fim do problema é encontrado um resultado, que você deve assinalar na prova. São 7 questões e você tem 1 hora para fazer o máximo que conseguir. A chave para essa etapa é CONCENTRAÇÃO. Depois vem velocidade. Digo isso porque tentei ser cauteloso na minha prova, examinando e reexaminando após cada questão para verificar o resultado. No fim, só fiz 5 questões. Acho que acertei todas porque passei dessa etapa. Mas mesmo assim, seria melhor me concentrar 100% e fazer as questões rapidamente sem checagem e talvez desse um tempo de checá-las no final. Mais uma vez – a chave é velocidade.

– A terceira prova é o Wonderlic denovo. Mas dessa vez não houve limite de tempo. Você tenta acertar o máximo possível, olhando as questões com calma e tudo mais. Inclusive você pode corrigir alguma questão que você porventura ache que errou no primeiro teste. Mas a pontuação feita na primeira prova já foi computada e suas correções só valem para essa outra avaliação.

As provas são extremamente cansativas (principalmente se você tá dando seu máximo), esgotantes, mas também muito divertidas pra quem gosta de desafios. Após as provas fui chamado para uma conversa em inglês com os palestrantes do Café Ágil. Nessa conversa, eles fizeram perguntas sobre… resumindo – “o que significa ser ágil de fato?” e pediram meu ponto de vista. Acredito que nessa fase eles analisam seu inglês, sua personalidade (tipo, se você tá só puxando saco e coisa e tal, obviamente isso vai ser notado), sua visão de equipe, ética e, por último , seu conhecimento em metodologias ágeis. A conversa se delongou por mais ou menos 1 hora de tão legal que tava. Nisso, já eram 21:30h e todo mundo só queria ir pra casa.


Entrevista técnica por telefone


O problema que eu enviei do “Mars Rovers” foi examinado por um desenvolvedor da TW por algumas semanas e a recruiter entrou em contato novamente para marcarmos uma data para fazer uma entrevista técnica por telefone. Na data marcada, eu tinha acabado de chegar do trabalho e me ligaram. De imediato deu pra notar que não era uma entrevista comum. O cara, que por sinal era muito bom e tinha sido a primeira contratação deles no Brasil, usou um tom bem descontraído e jamais nem sequer tentou dominar a conversa, como é comum acontecer nesses casos. Pelo contrário, eu falei bastante sobre o que eu achava e pensava sobre um monte de tendências da área de TI. Porém, algumas perguntas bem técnicas foram feitas, tipo:

– Sobre o que era o projeto no qual eu estava trabalhando? E o anterior ? O que você sugere/sugeriu como melhora para ele?

– Já foi commiter de algum projeto open source?

– Quais frameworks/APIs/ferramentas você usa ou já usou? Pediu para eu explicar algumas delas.

– Qual sua linguagem favorita? Se você fosse mudar algo nela, o que seria?

– Você trabalha num ambiente ágil? Qual sua metodologia/técnica ágil favorita?

As perguntas não foram feitas em sequência e o entrevistador não esperava respostas 100% consistentes com definições. Na verdade, em algumas perguntas, após eu responder, ele também dava a opinião dele. Muito divertido, foi tipo uma conversa de amantes do desenvolvimento de Software. Algumas perguntas pessoais foram feitas também, tipo, livros que eu mais gosto (tanto da área quanto fora), o que eu achava de mudar pra Porto Alegre e etc. Essa conversa demorou cerca de 20 minutos e daí passamos a falar da minha solução do problema enviado. Decisões de design que eu tomei, por que eu as tomei e se eu faria diferente depois. Essa parte não demorou muito, foi mais pra sentir o meu conhecimento sobre o código escrito e pra sentir a minha mentalidade frente a um problema de programação simples. Não tenho certeza disso, mas acho que caras que respondem coisas do tipo: “eu não mudaria nada”, “essa solução é completa” ou  “meu jeito é melhor”  devem perder pontos na sua avaliação. No total a conversa demorou uns 30 minutos, mas passou voando!

Super Saturday em Porto Alegre


Após a fase de entrevista técnica, recebi um email me convidando para comparecer ao “Super Saturday” em Porto Alegre. O Super Saturday é um evento promovido pela Thoughtworks para os candidatos conhecerem melhor as pessoas da empresa e vice-versa. Nesse evento, o candidato é submetido a mais algumas análises, dessa vez por vários membros da TW. É uma grande oportunidade, talvez a maior, de mostrar seu potencial e conhecer o deles. Então a TW paga sua passagem e sua hospedagem em Porto Alegre. Basicamente, foram realizados 3 testes:  análise de código, entrevista sobre cultura e ética e pair-programming, não necessariamente nessa ordem.

– Análise de código: Essa parte é bem interessante. Me foi entregue uma página com um enunciado de uma questão de programação a ser implementada e uma implementação. Como se alguém tivesse implementado a questão proposta. O problema é que o código escrito é propositalmente cheio de erros e gambiarras. Erros sintáticos, erros semânticos, más práticas de programação, modelagem tosca, enfim… tudo aquilo que bons programadores têm pesadelos à noite. Não é difícil encontrar os erros . Eles tão bem na cara, mas visto que são muitos, você pode deixar algum passar. Fique atento a isso. Desmascare todos os erros possíveis e imagináveis.

– Entrevista ética e cultural: Muito boa também. Alguns membros da equipe irão conversar descontraidamente com você sobre situações que podem ocorrer no dia-a-dia de um Thoughtworker. De vez em quando vão bolar algumas situações extremamente constrangedoras e perguntar “o que você faria?”. As situações são hipotéticas e algumas perguntas são capciosas, mas se você não é um “jerk”, deve ficar tranquilo e responder do fundo do seu coração, sem esconder o que realmente pensa. Afinal, esse é o objetivo dessa fase. Saber um pouco sobre que valores você preza e se seus valores e pensamentos estão de acordo com os da empresa. Simplificando: Be nice.

– Pair-programming: Lembra do desafio de programação que você deve implementar? Pois é, ele volta. E com mais funcionalidades. Você deve estar preparado para colocar mais funcionalidades no seu projeto e fazer isso da forma mais simples possível. Nessa fase eles verificam se você sabe programar em par (coisas que eles fazem quase 100% das vezes lá) e se você se comporta bem trabalhando com alguém do seu lado. É observado se você é uma pessoa que aceita sugestões, é amigável, sabe trocar idéias e é eficaz ao bolar um plano rápido de implementação. Recomendável ter prática com TDD também.

Voltando de Porto Alegre, aguardei algumas semanas até a TW entrar em contato novamente comigo. O que aconteceu foi que no Super Saturday eu não estava muito bem. Acordei no sábado com uma febre moderada, mas consegui segurar a onda. Logo após o almoço foi a minha entrevista de Pair programming. Falei que não estava me sentindo muito bem mas dava pra continuar com a entrevista. Resultado: fui muito mal. Não consegui me concentrar muito bem e, no final de uma hora, tinha desenvolvido pouquissima coisa. Achei que estava eliminado, mas acho que eles levaram em conta que eu consegui bolar a solução pro problema, apesar de não ter conseguido implementar a solução no tempo. Me deram mais uma chance e me colocaram pra fazer pair programming online com o consultor líder deles, um desenvolvedor superstar aqui no Brasil. Enfim, não fui tão mal. Dessa vez, consegui junto com ele colocar boa parte da solução em prática.

Outras histórias


Bem, fui aprovado na seleção da TW, mas infelizmente, ao analisar a proposta feita, cheguei a conclusão que o custo-benefício não compensava pra mim. É muito bom saber que uma das maiores empresas de Software do mundo, que só contrata os melhores e mais apaixonados pela profissão, me notaram positivamente. Mas no fim do dia, o que conta é o que você mesmo acha que vale a pena para a sua vida. Na minha forma de ver as coisas, uma mudança grande dessas, exigiria um benefício maior por parte da TW. Não se pode apenas confiar que, porque a empresa é “super cool” e tem muitos desenvolvedores top notch, um pensamento diferenciado da maioria no ramo de TI, qualquer coisa vai valer a pena para entrar lá. Obviamente, eu morando em POA seria completamente diferente mas enfim… Essa é apenas a minha opinião. Nem todos pensam assim. Tenho certeza que muitos aprovados decidiram se mudar pra lá e não se arrependeram disso. Mas cada caso é um caso e no meu caso, não senti a confiança necessária pra aceitar a proposta.

De qualquer forma, adorei a forma como eles tratam os candidatos – como potenciais colegas de trabalho. Todos com quem conversei são educados e super gente fina. Sem dúvida as pessoas são o maior bem que eles possuem e isso fica evidente desde o primeiro contato. Creio que essa mentalidade deve ser exercitada por mais empresas no Brasil. Da mesma forma, como profissionais devemos sempre nos aperfeiçoar esperando esse tipo de oportunidade. Ou criá-las.

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