Desenvolvimento Web, Design

Exceções: “checked ou unchecked – Eis a questão!”

Você é designado para procurar um bug num sistema super importante onde você trabalha. Ao ler o código, você percebe um trecho assim:


try {
    controladorUsuario.salvar(diretor);
 }
 catch(Exception e) {}

E agora? Largo tudo, ligo pra minha mãe dizendo que a amo e me jogo da varanda? Calma, ainda não. Você, como bom programador deve consertar o código primeiro. Pensando em como as exceções são tratadas de forma desordenada nos sistemas legados que eu já trabalhei/já fiz, resolvi pesquisar mais sobre a forma correta de se tratar erros/exceções nos nossos  sistema. Há tempos já vinha pensando sobre o assunto e resolvi escrever no blog agora, como uma forma de difundir essas técnicas. Neste post, eu dou algumas dicas e conceitos sobre exceções que pude coletar em alguns livros de peso na área de desenvolvimento de Software. Aí vão elas:

Checked ou unchecked?

Primeiramente, vamos aprender/rever o conceito de exceções checked (checadas) e unchecked (não checadas) que servirão de base para alguns argumentos mais a frente neste post.

Checked:  São exceções que obrigatoriamente devem ser tratadas de alguma forma. Ou seja, o programador é obrigado a fazer algo com ela – tratar com um bloco try-catch (e suas combinações) ou relançar com throws na assinatura do método. Note que esse tipo de exceção não existe na maioria das linguagens. Por exemplo, Ruby e C# não possuem o conceito de checked exceptions.

Unchecked: São exceções que o programador não é obrigado a tratar.  Elas podem ser tratadas, mas o ponto é que isto não é obrigatório! Caso não sejam tratadas,  são automaticamente relançadas para a camada acima até achar alguém em alguma camada que a trate – em última instância, o erro é lançado na tela ou pior, estoura silenciosamente e pára. Em Java, essas exceções são subclasses de RuntimeException (exceções de tempo de execução).

Ok então. Mas, qual das duas usar? “Se a maioria das linguagens não tem exceções checadas, é porque não são realmente muito importantes” você talvez pense.  Esse é um assunto que dá muito pano pra manga e vários escritores técnicos bem reconhecidos já opinaram sobre isso. Alguns contra, outros a favor. Mas, gosto de ver pelo seguinte ponto de vista: Isso depende muito do que você quer. Pense por um momento no conceito de capturar exceções. É uma chance que o programador tem de se recuperar de uma falha na execução do programa. Quando você lança uma exceção checada, você está na verdade deixando bem explícito pra quem for cliente do seu código que ele tem sim uma chance de se recuperar da falha que ocorreu.  Por exemplo, ao tentar sacar R$50,00 numa conta com R$10,00 de saldo, você deve lançar algo do tipo SaldoInsuficienteException – checada. Dessa forma, não tem perigo de o programador deixar essa falha vazar para a camada acima e você o dá a chance de redirecionar o usuário para uma página de erro mais amigável. Agora, caso haja um incêndio no prédio onde o seu banco de dados está e nessa mesma hora o usuário tentou persistir um novo saldo, o que fazer? Bom, não tem como se recuperar, tem? Normalmente não.  Você não quer obrigar o programador a tratar um erro que não tem mais o que fazer, quer? Então lance uma exceção unchecked. São justamente essas 2 perguntas que você deve se fazer. “Existe uma chance de se recuperar da falha? ” e/ou “Quero dar uma chance de se recuperar dessa falha?”. É por isso que exceções como a famosa NullPointerException são não-checadas. Mesmo que você trate dentro do bloco catch para que o procedimento seja repetido ou algo assim, não vai mudar o fato que você está tentando acessar uma referência nula. Simplesmente ocorreu um erro de programação.

Cada um no seu quadrado

É importante respeitar o nível de abstração dos seus componentes. Tipo,  você já deve ter visto algo como (assuma que essa essa exceção é checked):


class TelaSalvarConta {

...

    try {

        conta.salvar();

   }

    catch(ConcurrentSerializationException exc) {...}

Aqui temos uma classe de alto nível manipulando um objeto de domínio e lançando uma exceção de baixíssimo nível. Isso é uma exposição indevida de seus objetos e significa que você quebrou o encapsulamento violentamente. Essa exceção deve ter vindo de há muito tempo sendo relançada pela própria API  até chegar a camada mais alta do sistema. Isso significa que a assinatura do método salvar() da classe Conta tem uma exceção (throws) com esse mesmo nome: ConcurrentSerializationException. Absurdo, não? Isso jamais devia ter acontecido. Em algum ponto, algum programador da API deveria ter feito:


catch(ConcurrentSerializationException exc) {

    throw new ObjectAlreadyInTransactionException(exc);

}

Sendo ObjectAlreadyInTransactionException uma exceção não-checada, não seria necessário o programador declarar uma exceção na assinatura do método, além disso, se ele desejar tratar essa exceção mesmo sem ser obrigado a isso, ele tem uma exceção mais próxima da camada de negócios.

Em resumo, trate cada exceção de acordo com a camada do sistema a qual ela pertence.

Evite sujeiras

E por sujeira eu quero dizer exceções checadas. Por exemplo, você gosta da forma como a API IO de Java trata as exceções? Todas elas são checadas! Muitas vezes eu quero fazer algum teste bem bobo no qual eu preciso ler um arquivo ou um properties e adivinha… sim, preciso de um try-catch pra um erro que não há recuperação.  Lembre-se que o tratamento de exceções por meio de try-catch impossibilita melhoria de performance no seu código pela JVM. Isso é muito importante. Sem contar que deixa seu código sujo e “fedido”. Ou então você precisa de mais uma exceção declarada na assinatura do método, o que quebra o encapsulamento (dando dicas pra o cliente do código o que aquele método faz) e dificulta a flexibilidade da API impondo regras a quem quiser herdar aquele método.  Faça o máximo para sempre lançar exceções não checadas, exceto (como já falado) se existir uma forma de se recuperar do erro e você quiser realmente obrigar o cliente a fazer isso. Um aspecto em que você sai ganhando é que em exceções não checadas você pode simplesmente deixar que elas cheguem a parte mais “alta” da aplicação e tratá-las de forma centralizada. Por exemplo, num ambiente web com filtros.  Senão utilizando algum framework de AOP.

Os erros são amigos

É de partir o coração ver algumas pessoas fazerem o seguinte ao tratar erros:


catch(Exception e) {}

ou


catch(Exception e) {

throw new Exception("Erro!");

}

Esses dois exemplos mostram código terrível e jamais devem ser usados. No primeiro o programador simplesmente ignora o erro e este se perde no limbo. Se você for forçado a tratar o erro no seu código, você deve tentar ao menos logar a exceção. Jamais ignore-a completamente como no primeiro caso.  Uma boa abordagem é tentar relançar a exceção em forma de RuntimeException, dando um throw new RuntimeException(e) – ou qualquer outra exceção do tipo RuntimeException que se adeque semanticamente ao erro. Dessa forma, você pára de impor que as camadas acima tenham de tratar ou declarar a exceção. Repito, jamais ignore exceções no catch.

O segundo exemplo é melhor que o primeiro mas ainda assim não é o ideal. Se um outro desenvolvedor está testando sua aplicação e se depara com uma mensagem de exceção dessa? Tipo… o que aconteceu que deu erro? Pois é, você pode ser mais específico e criar uma exceção mais específica para o erro, assim também como uma mensagem mais explicativa. Lembre sempre disso: “Programe sempre como se o cara que fosse  manter seu código fosse um psicopata violento que sabe onde você mora”.

Conclusão

Mostrei aqui algumas dicas de boas práticas sobre como lidar com exceções. Não é nada muito difícil, realmente. Apenas exige esforço constante do desenvolvedor para que o código seja facilmente compreendido. Pense sempre se deve realmente usar uma exceção checada. Na maioria dos casos uma exceção não checada dá conta do recado de forma mais sucinta. Não misture as abstrações das exceções. Exceções de baixo nível em baixo nível, as de alto nível em alto nível. E sempre que for tratar uma exceção, verifique se está tratando no nível correto de abstração. Se estiver, utilize mensagens explicativas sobre o erro ocorrido. E caso encontre aberrações (como a mencionada no começo do post), não se jogue da varanda. Respire fundo e comece a aplicar o que aprendeu.

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Design, Design Patterns, Lógica

Tua hierarquia não irá te salvar garoto – Strategy

Imagine que hoje seu chefe chegou inspirado e te deu a missão de desenvolver o protótipo de um jogo de esportes. Nesse jogo, existem vários jogadores de modalidades distintas. De forma que todos eles possuem capacidades físicas inerentes aos esportes que praticam. Tipo, um jogador de futebol consegue correr muito rápido e pular razoavelmente alto. Um jogador de vôlei, por outro lado, não corre tanto assim, mas pula muito alto. Você, como excelente desenvolvedor em Orientação a Objetos pensa: “Já matei! Mais um problema manjado de herança!”. Bom, não necessariamente está errado. Você provavelmente vai surgir com uma solução. Mas, é esta solução a melhor? É a mais flexível, mais fácil de testar e de melhor manutenção?

Vamos lá, a primeira coisa a se fazer se você quer criar uma hierarquia de tipos é criar uma classe ‘pai’. Para jogadores parece bem óbvio… hum… Jogador. Vamos assumir para fins didáticos que a classe Jogador tem apenas 2 métodos: correr() e pular(), ambos abstratos. Em seguida, bolamos as classes filhas, digamos: JogadorFutebol e JogadorHoquei. No caso, teríamos:

public abstract class Jogador {
     public abstract void correr();
     public abstract void pular();
}
public class JogadorFutebol extends Jogador {
   public void correr() {
       System.out.println("correr como jogador de futebol...");
   }
   public void pular() {
       System.out.println("Pular como jogador de futebol...");
   }
}

public class JogadorHoquei extends Jogador {
    public void correr() {
        System.out.println("Correr de patins...");
    }
public void pular() {
        System.out.println("Não pular...");
    }
}

Legal! Isso funciona! Então beleza, agora seu chefe chega e diz que seus clientes estão loucos ensandecidos para que o jogo dê suporte a tênis! Bom, agora você vai ter apenas que criar mais uma classe filha de Jogador, só que dessa vez o jogador corre muito e não pula (o cliente pediu isso especificamente =P). Daí, resolve criar a classe JogadorTenis, que… “peraí! Eu posso herdar o corre() do jogador de futebol e o pula do jogador de hóquei e vou economizar um monte de código!” Hehe, tá, mas existem alguns problemas aí. Muitas linguagens nem mesmo suportam herança múltipla! Outra, herança múltipla pode te trazer outros problemas seríssimos. “Ah, então eu escolho uma das duas pra herdar e o outro método eu copio. =]” Nossa! Eu não sei como eu penso nessas coisas… Mas é uma idéia terrível! Primeiro, você não deve herdar classes com o objetivo de economizar linhas de código! Isso escapa completamente o objetivo de OO. Você herda quando uma classe realmente têm um relacionamento “IS-A”. Ou seja,  quando ela for uma especialização da classe pai e esta for uma generalização das filhas. No caso, JogadorTenis não é um JogadorHoquei nem tampouco um JogadorFutebol. Esqueça economizar linhas de código.

Esse primeiro motivo deve bastar, mas eu ainda completo com o segundo. Você ainda assim estaria duplicando código de outras classes. Por exemplo, se você resolve criar uma classe JogadorTenis que ‘extends’ Jogador, e implementa o método correr() como escrito na classe JogadorFutebol e pular() como na classe JogadorHoquei você estaria duplicando código 2 vezes! E isso é ruim, muito ruim. Imagina se mais tarde é descoberto um erro no método da classe pai? “Copia e cola” seria o seu segundo nome… É… herança parece ser uma má idéia nesse caso aí. Outro problema: caso o jogador se machuque e não consiga mais, digamos, correr. Como fazer a instância de um jogador de futebol executar um correr() diferente dinamicamente? E agora? De fato, você ficaria sem saída. Você poderia fazer vários tipos de jogador de futebol representando os estados do seu JogadorFutebol, sendo que cada uma herdando a classe pai… não, essa não é uma solução elegante. A sua hierarquia iria aumentar, o que significa que a raiz do seu problema ia crescer e assim sucessivamente.  Imagina agora se surge um JogadorPoker. Mas enfim… a ideia está próxima! O que você acha de composição? Pense nos comportamentos que os jogadores podem ter relacionados com as suas ações. Por exemplo, correr como? Pular de que maneira? Correr rápido é uma forma de correr. Não correr poderia ser outra. Correr de patins seria outra… E pular? Pular alto como um jogador de vôlei seria uma forma. Pular baixo seria outra… já deu pra pegar a idéia. Então, podemos encapsular esses comportamentos visto que são eles que mudam (e não os jogadores como estávamos pensando no começo do problema!). Esses comportamentos serão uma hierarquia por si próprios. E a maldita da composição, onde entra na história? Os seus jogadores vão possuir(HAS-A) esses comportamentos. Mais explicitamente, no caso de correr:

public interface AcaoCorrer {
     public void correr();
}
public class CorrerComPatins implements AcaoCorrer {
     public void correr() {
         System.out.println("Correndo com patins...");
     }
}
public class CorrerRapido implements AcaoCorrer {
     public void correr() {
         System.out.println("Correndo rápido como um jogador de futebol...");
     }
}
public class NaoCorrer implements AcaoCorrer {   
     public void correr() {
         System.out.println("Não corre.");
     }
}

public abstract class Jogador {

     AcaoCorrer acaoCorrer;
     AcaoPular acaoPular;

     public Jogador() {
         this.acaoCorrer = new NaoCorrer();
         this.acaoPular = new NaoPular();
     }
     public void correr() {
         this.acaoCorrer.correr();
     }
     public void pular() {
         this.acaoPular.pular();
     }

     public abstract void exibir();
     public void setAcaoCorrer(AcaoCorrer acaoCorrer) {
         this.acaoCorrer = acaoCorrer;
     }
//Foi omitido, mas suponha que existe uma ampla variedade de formas de pular, sendo todas filhas de AcaoPular    
    public void setAcaoPular(AcaoPular acaoPular) {
         this.acaoPular = acaoPular;
    }
}


Funciona do mesmo jeitinho e com mais vantagens:

1 – Temos um design voltado a interfaces ao invés de classes. Favorece a flexibilidade. Quando fazemos um comportamento ser representado por uma interface, ao invés de ser implementado na classe Jogador ou em uma de suas subclasses, estamos de certa forma “liberando” esse comportamento pra fora da classe. O comportamento (ou a hierarquia de comportamentos) está fora da própria classe. Além disso, estamos nos referindo ao comportamento de forma generalista, no caso AcaoCorrer > CorrerComPatins por exemplo. E na implementação apenas mencionamos como atributo o tipo da interface AcaoCorrer e não as reais implementações.

2 – É menos complexo você compor uma classe com outra do que começar uma nova hierarquia. Você estará sujeito a menos erros bobos assim.  Ah sim! E hierarquias podem se tornar coisas do capeta depois de 3 níveis.

3 – Podemos mudar o comportamento dinamicamente ou “on the fly”. Com os métodos setter dos comportamentos, podemos mudar o tipo de comportamento que quisermos quando bem entendermos. Exemplo:


public class Jogo {

    public static void main(String[] args) {

//Um jogador de futebol corre muito e pula normalmente

        Jogador jogadorFutebol = new JogadorFutebol();

        jogadorFutebol.correr();

        jogadorFutebol.pular();

//Um jogador de hoquei corre de patins e não pula

         Jogador jogadorHoquei = new JogadorHoquei();

         jogadorHoquei.correr();

         jogadorHoquei.pular();

//Um jogador de hoquei machucado, não consegue correr nem pular

         jogadorHoquei.setAcaoCorrer(new NaoCorrer());

         jogadorHoquei.correr();

         jogadorHoquei.pular();

    }

}

Note que é possível setar os comportamentos de correr e pular porque o parâmetro esperado no método setter é uma generalização – uma interface. Qualquer classe que implemente a interface em questão (o que significa que esse comportamento saiba correr ou pular) poderá ser passada como novo comportamento do Jogador.  Caso surja um JogadorPoker, ele será composto por comportamentos já existentes, NaoCorrer e NaoPular. Logo, não haverá duplicação alguma de código.

Todos esses passos mostrados acima compõem o conhecido padrão de projeto Strategy. Esse padrão está catalogado como um dos 23 Design Patterns do “Gang of Four” ou “GoF”.  Da próxima vez que você se deparar com um problema que tenha essa natureza de encapsular vários algoritmos ou comportamentos num mesmo objeto, lembre-se do padrão Strategy, que pode “mudar as vísceras” de um objeto.  Calma! Não saia por aí dizendo que conheceu um jeito de modelar objetos que mudou a sua vida (principalmente se você descobriu isso aqui nesse blog, nesse caso pesquise mais um pouco =P ). Esta é uma solução para esse tipo de problema, NÃO PARA TODOS.  Por isso, use-a com equilíbrio.

Existem várias APIs famosas que usam Strategy, como JPA (que usa 3 algoritmos diferentes de mapear classes a tabelas do BD) e o componente JComponent (na escolha de Borders) do Swing.  Como eu falei, essa solução clássica resolve vários problemas, e se você for do tipo que se depara com muitos, Strategy vai ser algo comum na sua vida. Por isso, ao se deparar com um problema que parece ser facilmente resolvido estendendo classes e/ou criando uma nova hierarquia, pense se composição não seria uma melhor solução. Não apenas você ficará feliz com uma solução elegante e abrangente, mas os programadores que porventura pegarem esse código no futuro também ficarão. =]

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Experiências, Lógica

Quando a realidade esmaga a intuição

Suponha que você esteja num programa desses tipo porta dos desesperados. O apresentador lhe convida a participar do jogo que funciona da seguinte forma:

Existem 3 portas. As 3 estão fechadas de forma que você não consegue ver o que cada uma contém. Porém, uma delas esconde um carro como premiação e as outras duas um bode cada. A decisão de onde estará a porta com o carro é feita aleatoriamente. E depois de escolhida a porta, o prêmio é fixado a ela. Imagine que você (o participante) escolhe uma das 3 portas. Logo após você anunciar  sua escolha, o apresentador faz aquele suspense e abre uma das outras 2 portas, de forma que ele sempre deixa um bode sair. Agora você tem 2 portas: uma com o carro e uma com o bode. Agora o apresentador lhe faz a pergunta chave: “Você deseja trocar de porta ou continuar na mesma?” Qual seria a melhor decisão para você ganhar o carro? “Obviamente dá no mesmo. É  50% de chance de qualquer jeito…” Pois é. Fácil, né? NÃO! Por mais que a sua intuição clame desesperadamente para ser ouvida, a verdade é que, trocar de porta, nesse caso, dobra suas chances de vencer em relação a continuar com a primeira escolha. Mais especificamente, ao trocar de porta você tem 2/3 de chance de ganhar o carro.

 

The Monty Hall Problem


Esse problema,”The Monty Hall Problem”, ficou conhecido mundialmente após Marilyn Vos Savant publicá-lo em uma coluna sua numa revista de puzzles e matemática nos E.U.A. Os leitores da revista ao se depararem com o problema ficaram chocados com a resposta. E não eram pessoas do dia-a-dia ou alunos prevestibulandos, eram de fato Ph.Ds em matemática, doutores em estatísticas, cientistas renomados e etc. Estes enviaram cartas agressivas para a senhora Vos Savant em sua própria coluna, expondo o erro crasso que ela supostamente havia cometido. Eles argumentavam coisas do tipo

“Não vou nem mesmo perder muito tempo com a explicação do problema. Queira reconhecer seu erro e admitir que a resposta é 50% como nós dois bem sabemos…”

“Quer você mude sua resposta, quer não, a resposta é 50-50 de chance. Esse país já está cheio de ignorantes em matemática. Não precisamos do maior QI do mundo propagando isso. Que vergonha!”

Após algumas semanas de cartas e mais cartas, explicações e mais explicações, os matemáticos cederam e aceitaram a resposta de Vos Savant. “Quando a verdade se choca tão violentamente com a intuição” – disse ela – “as pessoas ficam chocadas.”

Paul Erdös (pronuncia-se ‘Erdish’), grande matemático húngaro, maior publicador de trabalhos na área, foi uma das pessoas que se chocaram com a resposta. E pior ainda: por não entender porque a resposta está certa. Aconselho esse livro, contando mais sobre essa e outras histórias.

 

O que danado isso tem a ver com programação ?


Bom, desafiei algumas pessoas no trabalho com esse problema a título de brincadeira. Como era de se esperar, todos responderam que a chance era 50-50 e protestaram veementemente quando eu falei que era muito melhor idéia trocar de porta. Experimente. As pessoas realmente enlouquecem com isso. É a intuição delas que está em jogo! Após muita discussão, foi feito um simulador em Java para provar que a chance era de 50%. Catch-22. O programa respondeu que era melhor trocar de porta, com aproximadamente 2/3 de chance de vencer ao fazer isso. Muito bem. A resposta passou a ser aceita, mas não se fazia ideia do porquê disso acontecer. Uns falaram em paradoxo, ainda outros em 2 respostas corretas, enfim. O programa que simulava o problema foi escrito de forma bem algorítmica, bem orientado a estatística mesmo e nada revelava sobre o insight da solução. Daí me veio a ideia de escrever um simulador com código orientado a objetos e bem fluente, de modo que o código se comunique conosco, dizendo o porquê de nossas chances aumentarem ao trocar de porta. Igual uma equação matemática ou um gráfico “falam” com a gente. Daí que surgiu a ideia do post. O ponto aqui não é recriminar as pessoas que não aceitaram a resposta do desafio, afinal de contas, eu também não aceitei de imediato.  Mas mostrar como a solução vem a tona facilmente se nos empenharmos em fazer um código que reflita o modelo de negócio de forma mais real possível. Isso se aplica ao Monty Hall Problem, ao jogo da velha que você fez no 1° período, ao sistema de GPS que você programou, ao sistema do seu banco e por aí vai.

Primeiramente, vamos entender porque a solução é realmente trocar de porta e depois vamos analisar como bom código, escrito com fluência, refletindo os requisitos do problema especificado, ajudam a entender a solução. Se você já leu até aqui, não pare agora 😉

 

Exagere sempre que puder


Sempre que você se deparar com um problema de lógica, uma boa abordagem é estressar o problema. Exagere. Tanto pra mais quanto pra menos, exagere! Claro, isso vai te ajudar a pensar não só no problema ali, mas em outras versões adaptadas do mesmo. Meio que estudando o problema olhando todos os seus lados assim como alguém estuda um cubo mágico antes de tentar completá-lo.

Vos  Savant fez isso ao dar a primeira dica da solução. Imagine que você tem, não 3 portas, mas 1.000.000 delas. Um carro e 999.999 bodes. Se o apresentador abrisse todas as portas exceto a 777.777, você trocaria bem rápido, não ? Esse primeiro argumento mata a questão. Porque se você diz que não trocaria, você está dizendo que a probabilidade de você estar certo na primeira vez que escolheu 1 entre 1 milhão de portas é a mesma que a probabilidade de você acertar agora com 1 entre 2 portas!  É danado né? Você ver o apresentador abrir 999.998 portas com bodes e ainda assim você achar que a sua porta tem um carro, e não a outra, a única que ele não abriu!

A segunda dica da solução é a mais simples, Marilyn Vos Savant desenhou todas as hipóteses possíveis e a conclusão vem rápido:

Possibilidades existentes

Se você não trocar de portas, você perde 2 em 3 vezes!

Analisando o problema com Orientação a Objetos


Como falei, o algoritmo feito inicialmente para o simulador era extremamente algorítimico: utilizando arrays, números pra representar portas, o main era o programa de auditório e por aí vai. É verdade que é bem mais rápido de se fazer se você quiser apenas provar que trocar é a melhor solução. Mas não dá pra ter insight nenhum da solução olhando pra um código não OO. Por isso, implementei um código bem simples em Java que possui uma representação mais realista. Temos assim, classe Porta, classe Participante e classe Show para retratar esse problema. Veja abaixo:

public class Show {

  private List<Porta> portas;

  private Participante participante;

  public Show(int quantidadePortas) {

    this.participante = new Participante();
 
    this.portas = new ArrayList<Porta>();

    for(int i = 0; i < quantidadePortas; i++) {
      this.portas.add(new Porta(i));
    }

    Porta premiada = sortearPorta();
    premiada.setPremiada(true);
  }

  public boolean simular(boolean trocar) {
    participante.escolherQualquerPorta(this.portas);
    abrirPortas();
    if(trocar) {
      participante.trocarPorta(this.portas);
    }
    return this.participante.getPorta().premiada();
  }

  public void setPortas(List<Porta> portas) {
    this.portas = portas;
  }

  private Porta sortearPorta() {

    int numPorta = sortearNumero(this.portas.size()-1);

    return this.portas.get(numPorta);
  }

  private void abrirPortas() {

    Porta escolhida = this.participante.getPorta();

    Porta portaRestante = null;

    this.portas.remove(escolhida);

    if(escolhida.premiada()) {
      portaRestante = sortearPorta();
    }
    else {
      for(Porta porta : this.portas) {
        if(porta.premiada()) {
          portaRestante = porta;
          break;
        }
      }
    }

    this.portas.clear();
    this.portas.add(escolhida);
    this.portas.add(portaRestante);
  }

  private int sortearNumero(int maximo) {
    return (int)Math.round(Math.random()*(maximo));
  }

  public List<Porta> getPortas() {
    return portas;
  }

  public static void main(String... args) {

    int acertos = 0;

    int rodadas = 100;

    int numPortas = 3;

    for(int i = 0; i < rodadas; i++) {

      Show show = new Show(numPortas);

      boolean resultado = show.simular(true);
      if(resultado) {
        acertos++;
      }
    }

    System.out.println("Taxa de acerto: " + 100*(((double)acertos/(double)rodadas)) + "%");
  }

}

class Participante {

  private Porta porta;

  public void escolherQualquerPorta(List<Porta> portas) {
    int numPorta = (int)Math.round(Math.random()*(portas.size()-1));
    this.porta = portas.get(numPorta);
  }

  //Troca pela primeira porta que não seja a dele
  public void trocarPorta(List<Porta> portas) {
    for(Porta temp : portas) {
      if(temp.getNumero() != this.porta.getNumero()) {
        this.porta = temp;
        break;
      }
    }
  }

  public Porta getPorta() {
    return porta;
  }

  public void setPorta(Porta porta) {
    this.porta = porta;
  }

}

class Porta {

  private int numero;

  private boolean premiada;

  public Porta(int numero) {
    this.numero = numero;
  }

  public int getNumero() {
    return numero;
  }

  public void setNumero(int numero) {
    this.numero = numero;
  }

  public boolean premiada() {
    return premiada;
  }

  public void setPremiada(boolean premiada) {
    this.premiada = premiada;
  }

}

Esse é o código pra simular o resultado do problema proposto.  Por default ele está trocando de porta. Se você quiser testar sem trocar de porta basta modificar o parâmetro do método ‘simular’ para false.  Mas o propósito disso tudo é analisar esse código. Um princípio muito importante de desenvolvimento de software é a chamada “Divisão de Responsabilidades”. Cada classe tem um propósito, e apenas um. O mesmo é válido para métodos.  As classes acima possuem essa característica.  Por exemplo,  a classe Participante reproduz as ações que o participante fará durante o jogo: escolherPortaAleatoriamente() e trocarPorta(). Participante não sorteia porta ou simula o jogo de alguma forma. Quem faz isso é a classe Show, que representa o jogo como um todo.  Dessa forma, o código fica mais fácil de entender. Logo, a chave para o problema ser do jeito que é também fica na cara. Por exemplo, no problema citado, uma parte do código que me dá um bom insight do porquê da solução é:

 


Porta escolhida = this.participante.getPorta();

Porta portaRestante = null;

if(escolhida.premiada()) {
  portaRestante = sortearPorta();
}
else {
  for(Porta porta : this.portas) {

    if(porta.premiada()) {
      portaRestante = porta;
      break;
    }
  }
}

Se você observar bem, verá que esse método revela a intenção do apresentador do programa, digamos, a mente dele ao manipular as portas. Note que existem 2 portas que são escolhidas pelo apresentador para NÃO serem abertas: ‘escolhida’ e ‘portaRestante’. Ou seja, a porta escolhida pelo participante inicialmente e mais uma porta restante. Sempre teremos 2 portas ao final: uma delas é a escolhida pelo participante e a outra… bem, aí que está a ‘mágica’. Observe como a outra porta é escolhida para permanecer fechada. O apresentador do programa não escolhe por acaso! Veja que o método ‘abrirPortas’ tem acesso a informações a coisas que supostamente não era pra ter. Mas são regras do jogo! Logo, ele sabe o que está por trás das portas. Vou repetir: A classe Show tem acesso a informações encapsuladas em todas as portas – se ela esconde um bode ou um carro. Participante só tem acesso a porta que ele escolheu. Agora observe a forma como o apresentador pensa pra decidir que portas ficarão fechadas. O if-else é como se estivesse perguntando a si mesmo: “A porta escolhida pelo participante  é a premiada? Se for, vamos escolher qualquer uma outra pra ficar fechada. Caso a porta que ele esteja agora tenha um bode, abra todas EXCETO a que tem o carro.” Então há ganho de informação na passagem da primeira escolha pra segunda! E o apresentador sabe de tudo isso pelo acesso que ele tem às portas. Na primeira escolha, o participante tem 1/3 de chance de acertar. Mas na segunda, o participante deve antecipar que o apresentador sempre vai abrir uma porta com um bode. O ganho de informação se concretiza quando o participante realiza que ele está de fato trocando a chance de apostar em uma porta pela chance de apostar em duas.  E no código isso fica explícito na forma do apresentador decidir que portas serão abertas.

Ganho de informação? É. Tipo, caso um E.T aterrise no programa logo após o momento que o apresentador abriu uma porta e saiu um bode, e ele veja que existem apenas 2 portas, onde em uma delas está o prêmio, com certeza as chances serão de 50%. Mas aí que tá: ele não teve o ganho de informação obtido no momento da abertura da porta!

Modifique o atributo ‘numPortas’ no método main para 10.000 e veja como as suas chances aumentam. Isso corresponde ao primeiro argumento de Vos Savant para trocar de portas. Repare que a cada porta existente nesse caso, o apresentador irá pensar de forma a só abrir as portas com bodes. Ganho de informação multiplicado… Se eu fosse você, trocaria fácil!

Agora é com você… pronto pra colocar o Sérgio Mallandro no bolso?

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Experiências, Lógica

Números “aleatórios” – Random

Você já se perguntou como o Math.random() gera um número aleatório ? Já? Bom, eu me perguntava bastante. Tanto que um dia resolvi revirar o que havia por trás dele. Isso já faz algum tempo, mas de qualquer forma, é algo interessante pra postar aqui.

Antes de mais nada não podemos descrever esses números como aleatórios ou randômicos porque é 100% previsível o número que o Math.random() vai gerar. Tá, tudo bem. Pra quem não se apega a detalhes e acha que isso é apenas semântica, vai em frente e chama isso de aleatório. Mas eles não são! São pseudoaleatórios. “Pseudo” porque são previsíveis como já falei. Como assim previsíveis? Veja. Em computação, existem os chamados “Pseudo Random number generators” ou geradores de números pseudo-aleatórios. Esses são baseados em uma equação que, recebendo como parâmetro um valor numérico, retorna uma série numérica. Os números que compõem essa série são normalmente bem diferentes uns dos outros (primos, ímpares, primos entre si, múltiplos de 7, próprio zero e assim por diante), o que podemos dizer que a equação gera números randômicos. O problema é que com o tempo, essa série começa a se repetir.

Mas… peraí! É previsível o número que o Math.random() vai gerar? Hã… sim! Ora, é baseado numa equação. E java.util.Random utiliza LCG  (Linear congruential generator):

 

Equação LCG

Equação LCG

Obviamente existem outras equações pra gerar essas sequências. Inclusive Von Neumann mesmo inventou uma (não muito boa por sinal).

Vamos ver na prática agora, como o Random gera a mesma sequência “aleatória” numa aplicação bem simples:

<code>

</p>

<pre>import java.util.Random;

public class GeradorAleatorio {

    private Random random;

    public GeradorAleatorio(long semente) {
         random = new Random(semente);
     }

     public int gerarInt() {
          return random.nextInt();
     }

     public long gerarLong() {
          return random.nextLong();
     }

     public double gerarDouble() {
          return random.nextDouble();
     }

     public static void main(String[] args) {
           GeradorAleatorio gerador =
           new GeradorAleatorio(10);
           long l = gerador.gerarLong();
           System.out.println(l);
      }
}

</code>

Pode rodar o código quantas vezes quiser. A sequência gerada sempre será “-4972683369271453960” seguido de “4755622236989466036“. Como o Random trata pra te entregar um valor double mais “bonitinho” é outra história.

Enfim, a questão é que a gente acabou de ver que esses números são sempre os mesmos pra o mesmo valor inicial passado (ou seed – semente). Daí surge a pergunta: “Como gerar números imprevisíveis?” Bom, existe uma técnica bem comum que é passar o System.currentTimeMillis() como seed ou valor inicial. Como esse valor corresponde ao número de milissegundos passados desde 1970 pra o tempo atual, esse valor irá variar numa amplitude maior ainda. Tornando-o estatisticamente imprevisível.

<code>
    GeradorAleatorio gerador =
    new GeradorAleatorio(System.currentTimeMillis());
    long l = gerador.gerarLong(); 
    System.out.println("O long aleatório foi: " + l);

</code>
Agora pode rodar o código quantas vezes quiser que o resultado será sempre diferente. Note que em teoria, o número sorteado ainda é previsível. Imagine que o mundo congelou no momento que a semente é passada para o construtor da classe Random e você pôde ver que número foi esse. Jogando ele na equação, você poderia prever com 100% de certeza que número seria sorteado. Mas enquanto o mundo não congelar tendenciosamente para alguns, o truque está seguro.

public class GeradorAleatorio {

 

private Random random;

 

public GeradorAleatorio(long semente) {

random = new Random(semente);

}

 

public int gerarInt() {

return random.nextInt();

}

 

public long gerarLong() {

return random.nextLong();

}

 

public double gerarDouble() {

return random.nextDouble();

}

 

public static void main(String[] args) {

GeradorAleatorio gerador = new GeradorAleatorio(System.currentTimeMillis());

long l = gerador.gerarLong();

System.out.println(l);

}

 

}

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Desenvolvimento Web

Filtro Anti-XSS em Java

Há um bom tempo, na empresa onde trabalho, enfrentei uma situação curiosa. Eu ainda estagiava e um colega (hoje na globo.com) me perguntou: “quão segura é a aplicação que você está desenvolvendo?”. Eu, muito ingênuo (bem, muito mais do que hoje), respondi que era possível encontrar bugs, mas nada catastrófico a ponto de pôr tudo a perder. Outro colega (talvez mais ingênuo) teve a audácia de dizer que o sistema sob sua responsabilidade era livre de erros de segurança de qualquer tipo. A questão voltou-se completamente contra o programador super-confiante. Todos começaram a pensar em formas de encontrar bugs catastróficos e logo, o primeiro colega, autor da questão inicial, encontrou a brecha. Em poucos minutos, ele mostrou como cadastrar um item num dos cadastros do sistema para que, quando alguém clicasse nesse item, o sistema direcionaria o usuário para o site do google (ele foi bonzinho, poderia direcionar para algo bem pior…). Não preciso mencionar que o responsável pelo sistema ficou sem fala… Logo após, ele mencionou como era fácil encontrar sites expostos a este tipo de ataque e mostrou uma meia dúzia deles. Nos próximos dias comecei a trocar umas idéias com alguns desenvolvedores sobre como defender-se de ataques XSS. Esse post mostra basicamente uma forma de defesa “server-side” contra esse tipo de ataque (mais especificamente em sistemas Java, mas obviamente, a idéia se aplica a muitas outras linguagens).

Primeiro, uma tentativa de definição do que é Cross-Site Scripting:

Cross-Site Scripting (XSS) é um tipo de vulnerabilidade que pode existir em aplicações Web, na qual o ataque começa no lado do cliente, “atravessa” o sistema e permite ao atacante obter informações não permitidas de outros usuários que acessam ou acessaram a aplicação. Isso é feito por meio de injeção de código malicioso dentro das páginas web acessadas pelos usuários.

Ataque XSS

Ataque XSS

Esses ataques normalmente são códigos javascript inseridos por meio de campos de texto da aplicação e é bem fácil de simular. Aqui você encontra como simular um ataque XSS. É bem simples mesmo. Da mesma forma, a solução que eu utilizei é bem simples, é server-side e aqui vai um passo-a-passo de como implementar isso:

1 – A idéia é construir uma classe para tratar a requisição (request) da forma como você deseja. No meu caso, precisávamos tratar requests com tags html, como por exemplo “<script>” e “<a href>”. Um método estático que recebe a String original e retorna uma String modificada (do jeito que você precisa fazer) deve dar conta do serviço. Para casos mais gerais – e acredito que tratar TODAS as tags do tipo “<*>” – aconselho usar expressões regulares.

– Exemplo de classe TratarTags:


public class TratarTags {

    /*Expressão representando todas as expressões com tags html. "?"
    significa não-gulosa(non-greedy).*/
    private static final String expressaoComTags = "<.*?>";

    public static String retirarTags(String html) {

        String retorno = html.replaceAll(expressaoComTags, "");
        return retorno;
    }
}

2 – Construir o filtro propriamente dito. É necessário que você implemente a interface javax.servlet.Filter que consiste dos métodos init, destroy e – chegaremos lá – doFilter. Dentro do init e do destroy não tem muito o que fazer. O Container Web (uso o Tomcat 6.0.14 no momento) é esperto o suficiente pra saber o que fazer com esses caras. Particularmente falando, coloquei um log pra sinalizar inicialização e destruição do filtro.

Dentro do doFilter() – e é agora que começa a ação – você deve pegar o objeto do tipo HttpServletRequest, decorá-lo dentro de um tipo que você criará (ver passo 3) e passá-lo adiante para o container. Daí em diante, o container decidirá se enviará o request embrulhado, ou seja, seu objeto “request” criado no passo 3, para o próximo filtro (se existir um) ou para o servlet em questão. Para passá-lo adiante é bem simples. Pegue o objeto FilterChain que foi passado por parâmetro e chame o método doFilter do mesmo passando o request embrulhado e o response (você também pode alterá-lo se quiser! =D).

3 – Para entender esse passo você precisa ter ao menos uma noção do que é um Decorator. Tá. É um padrão de projeto, eu sei. Quase todo mundo sabe. O que eu quero dizer é que você precisa ENTENDÊ-LO.

A má notícia é que você não pode alterar o request em si e passá-lo adiante. Por outro lado, ninguém nunca falou nada sobre passar um request “de mentirinha” para o container. É isso que você faz basicamente. Você cria um objeto wrapper, no caso um RequestWrapper, que faça tudo que um HTTPServletRequest normal faz. “Tenho que implementar a interface de HttpServletRequest então…” você pensa. Você até pode. Mas essa interface possui uma monstruosidade de métodos que, acredite em mim, você não vai querer implementar um a um. Por isso já existe na API Java Servlet uma classe chamada HttpServletRequestWrapper, a qual você só modifica os métodos que você quiser! É só estendê-la! Agora ficou fácil. Bom, pra tratar tags html eu sobrecarreguei todos os métodos getParameter* para pegar o valor do getParameter* original, aplicar a regra da minha classe TratarTags (passo 1) e retornar o valor modificado. Sempre que uma requisição chegar ao servlet e você quiser extrair um valor do request(um parâmetro por exemplo), esse valor já chegará SEM as tags. O que significa que o filtro deu conta do trabalho.

Exemplo: TratarTagsFilter:

public class TratarTagsFilter implements Filter {
    private MapeamentoUrlCampo mapeamento = null;

    public TratarTagsFilter() {
        this.mapeamento = MapeamentoUrlCampo.getMapeamento();
        this.mapeamento.addMapeamento("campanhaAction.do", "script");
     }

     private static final Log logging =
     LogFactory.getLog(TratarTagsFilter.class);

     public void destroy() {
         logging.info("Terminando de executar o filtro. Classe= " + this);
     }

     public void doFilter(ServletRequest request,
     ServletResponse response, FilterChain chain) throws IOException,
     ServletException {
         logging.info("Executando o filtro neste momento. Classe= " + this);
         RequestWrapper requestWrapper = new RequestWrapper(request);
         chain.doFilter(requestWrapper, response);
     }

         public void init(FilterConfig arg0) throws ServletException {
         logging.info("Iniciando o filtro neste momento. Classe= " + this);
     }
     /*** Classe Interna estática que adiciona uma nova
     funcionalidade aos métodos da Classe HttpServletRequest* */
     private static class RequestWrapper extends HttpServletRequestWrapper {

         public RequestWrapper(ServletRequest request) {
             super((HttpServletRequest)request);
         }

         @Override
         public String getParameter(String name) {
             String valor = super.getParameter(name);
             String urlAtual = this.getRequestURL().toString();
             MapeamentoUrlCampo mapeamento = MapeamentoUrlCampo.getMapeamento();
             if(valor != null && !mapeamento.permiteCampoHtml(urlAtual, name)){
                 String novoNome = TratarTags.retirarTags(valor);
                 return novoNome;
             }
             else {
                 return valor;
             }
         }
         @Override
         public Map getParameterMap() {
             Map<String, String> map = super.getParameterMap();
             Set<String> chaves = map.keySet();
             List<String> listaChaves = new ArrayList<String>(chaves);
             Map<String, String> mapRetorno = new TreeMap<String, String>();
             for(String chave : listaChaves) {
                 mapRetorno.put(chave, this.getParameter(chave));
             }
             return mapRetorno;
         }
         @Override
         public String[] getParameterValues(String name) {
             String[] valores = super.getParameterValues(name);
             String[] novosValores;
             String urlAtual = this.getRequestURL().toString();
             MapeamentoUrlCampo mapeamento = MapeamentoUrlCampo.getMapeamento();
             if(valores != null && !mapeamento.permiteCampoHtml(urlAtual, name)) {
                 novosValores = new String[valores.length];
                 for(int i = 0; i < valores.length; i++) {
                     novosValores[i] = TratarTags.retirarTags(valores[i]);
                 }
                 return novosValores;
             }
             else {
                 return valores;
             }

         }
    }

}

4 – Agora basta configurar o filtro construído no seu web.xml. Dentro do elemento web-app você cria
duas tags:

A primeira é:


<filter>
    <filter-name>TratarTagsFilter</filter-name>
    <filter-class>com.projeto.filtro.TratarTagsFilter</filter-class>
</filter>

Que você direciona para interceptar apenas um padrão específico de url dessa forma:


<filter-mapping>
    <filter-name>TratarTagsFilter</filter-name>
    <url-pattern>/*</url-pattern>
</filter-mapping>

Pronto, o filtro está pronto pra funcionar na sua aplicação. Não sei se existe outra estratégia de evitar ataques via XSS fora essa de retirar tags html arriscadas. Sei que essa funciona eficientemente, por isso decidi utilizá-la. No entanto, se algum leitor souber de outra abordagem interessante, ficaria muito curioso em ouvi-la.

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Spring

Spring – Migrando de XML para Annotations

Introdução

Com certeza, você já abriu um arquivo do tipo applicationContext.xml e se deparou com um arquivo xml gigantesco com um monte de declarações de beans, onde se define em cada um deles, o nome de identificação, o nome completo da classe concreta, o escopo, o tipo da injeção de dependência e etc. do tipo:

<bean name="/meuBean"
scope="prototype" autowire="autodetect"/>

Más notícias pra quem encontrar esse tipo de abordagem no seu projeto. Primeiro, as configurações internas do seu projeto estão tornando a implementação de qualquer nova funcionalidade dependentes de um arquivo xml externo as classes. E isso significa alto acoplamento, ou seja, má idéia. Segundo, é muito mais difícil pra quem está aprendendo um novo sistema (uma manutenção por exemplo) se deparar com arquivos contendo um monte de beans a serem injetados pelo Spring e entender o propósito deles. Além desses 2 motivos, um ou mais xml´s enormes dão um aspecto lixoso ao projeto, quando uma solução mais elegante poderia ser empregada.

A boa notícia é que o Spring Framework já provê um melhor suporte a forma como seus beans são injetados pelo container de Injeção de Dependência – Annotations! Nesse artigo, você verá como é simples migrar da forma antiga de injetar dependências (XML) para a nova forma (Annotations) usando o melhor das novidades do Spring 2.5.

@Autowired – injetando dependências

Bom, vou levar em consideração que o leitor já conhece o funcionamento do container de IoC do Spring. Tendo dito isto, vamos direto ao ponto da mudança principal: a migração de xml para annotations. A annotation que o Spring disponibiliza para marcar o objeto injetado é @Autowired. Você pode encontrar mais informações técnicas sobre ele aqui. Você pode marcar um atributo, um setter ou um construtor como @Autowired, de acordo com sua preferência/necessidade. Pessoalmente, eu prefiro marcar os atributos de classe mesmo. Por que? 2 motivos:

1 – É mais simples. Simplesmente. Não preciso escrever um setObjeto nem um construtor que, no fim, só será usado pelo framework. Se eu não uso, não deveria escrever. Ou seja, menos verbose.

2 – Programando voltado-a-interfaces, se eu anoto meu atributo, uma interface, como @Autowired, o container IoC irá buscar apenas a única implementação daquela interface. Caso você tenha mais de uma implementação e quer escolher uma, pode usar o @Qualifier para escolher o bean mais especificamente. Nesse caso, aumentaria a verbose.

Para exemplificar, na sua classe que usaria uma dependência, você faria assim:

public class LoginAction {
    private final Log logger = LogFactory.getLog(LoginAction.class);

    @Autowired
    private IControladorHorario controladorHorario;
}

@Component, @Service, @Repository – dando nome aos bois.

Na configuração dos beans por xml era necessário dizer o id dos beans, ou um nome de identificação. Com annotations não é diferente. Só que é BEM mais fácil dar nome aos bois. Você simplesmente usa a annotation @Component na classe do bean que será injetado e coloca o id do bean entre os parênteses. Exemplo:

@Component("controladorHorario")
class ControladorHorario {...}

Na verdade, você deve optar por usar annotations mais específicas como @Service para controladores e @Repository para Daos/Repositórios. São os chamados stereotypes. Essas Annotations têm o mesmo efeito de @Component e estendem esta.

Parece mágica, mas não é. Ou é?

Nada demais até aqui. Repare que estamos injetando um controlador numa Action (Struts). É, eu sei. Parece mesmo mágica, mas o que ocorre na verdade é que, para o container saber onde detectar annotations você precisa declarar no seu applicationContext.xml o conjunto de pacotes onde ele deve procurar. Já vi casos onde são usados 3 contextos na aplicação (um para beans das actions, um para beans dos controladores[controladores do model] e um para beans do Dao). Nesse caso devemos indicar que beans procurar em cada um desses contextos (eu sei, é mais complicado e você normalmente deve usar apenas um applicationContext mesmo). No caso, no meu contexto de actions, eu indico onde estão os beans dos controladores, porque as actions injetam controladores. No meu contexto de controladores, eu indico onde estão os beans dos daos, porque os controladores injetam os Daos. Por exemplo, no contexto onde declararia os beans dos actions:

<beans xmlns="<a href="http://www.springframework.org/schema/beans" target="_blank">http://www.springframework.org/schema/beans</a>"
xmlns:xsi="<a href="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance" target="_blank">http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance</a>"
xmlns:context="<a href="http://www.springframework.org/schema/context" target="_blank">http://www.springframework.org/schema/context</a>"
xsi:schemaLocation="<a href="http://www.springframework.org/schema/beans" target="_blank">http://www.springframework.org/schema/beans</a>
<a href="http://www.springframework.org/schema/beans/spring-beans-2.5.xsd" target="_blank">http://www.springframework.org/schema/beans/spring-beans-2.5.xsd</a>
<a href="http://www.springframework.org/schema/context" target="_blank">http://www.springframework.org/schema/context</a>
<a href="http://www.springframework.org/schema/context/spring-context-2.5.xsd" target="_blank">http://www.springframework.org/schema/context/spring-context-2.5.xsd</a>">

    <context:annotation-config/>
    <context:component-scan base-package="com.provider.discador.horario.controle">
        <context:include-filter type="annotation" expression="org.springframework.stereotype.Service"/>
    </context:component-scan>
</beans>

– A tag “<context:annotation-config/>” indica para o framework que você está declarando seus beans via annotations.
– A tag “<context:component-scan base-package=”com.provider.discador.horario.controle”>” indica aonde o container deve fazer uma busca por annotations relacionadas com injeção de dependência. Encontrando essas annotations, o container produz as instâncias necessárias e injeta aonde o usuário indicar por meio do @Autowired. A tag interna a esta é “<context:include-filter type=”annotation” expression=”org.springframework.stereotype.Service”/>” e é utilizada como filtro para o container. Como se dissesse: “Ei! Vá nesse pacote e procure apenas por beans anotados por @Service”. Você pode optar também por usar um filtro de exclusão ao invés de inclusão como o exemplificado agora. Aprenda mais sobre essa mágica aqui.

“Mas não é melhor mandar o container fazer scan de todos os pacotes procurando todos os tipos de annotations logo? Ao invés de perder tempo especificando os pacotes que serão incluídos/excluídos?” A resposta é: NÃO. Tecnicamente você pode. Mas o overhead é significativo. Pense nisso, o container do Spring vai ter que fazer uma busca em toda a aplicação, preparando beans, dentro de beans, dentro de beans… enfim, tudo isso é custoso. “Mas minha aplicação é pequena, não tem problema…” talvez diga. Acontece que de qualquer forma, você está sobrecarregando uma capacidade do framework sem necessidade. Se você não precisa carregar todos os beans de todos os pacotes, e mesmo assim o faz, isso revela que você não tem muitos critérios como desenvolvedor. Tipo matar mosquito com bazuca.

Uma abordagem a evitar

Apesar de todas as facilidades que essa técnica possibilita, existe um problema de conflito com um design facilmente encontrado por aí – HibernateDaoSupport. Essa classe faz parte do framework Spring e é bastante simples ao disponibilizar serviços de um DAO via Hibernate. O HibernateDaoSupport, com o objetivo de salvar objetos na sessão e consequentemente no banco de dados, possui uma SessionFactory que é inicializada uma vez assim que a aplicação começa a rodar. Você talvez configure essa SessionFactory no seu contexto de dados do spring. Então, se você deseja injetar uma classe Dao que estenda direta ou indiretamente HibernateDaoSupport você terá problemas. O problema começa uma vez que você chama getHibernateTemplate(). Visto que você estende o HibernateDaoSupport, a chamada a getHibernateTemplate() irá procurar pelo objeto hibernateTemplate na classe pai – o objeto não será encontrado visto que não foi injetado – e você terá um erro do tipo “java.lang.IllegalArgumentException: sessionFactory or hibernateTemplate is required”. A causa desse erro é bem difícil de sacar, mas você pode consertar bem facilmente também. Como a sua classe Dao precisa de um hibernateTemplate ou sessionFactory e não os encontra na classe pai, você mesmo precisa encontrar uma forma de injetá-los. Eu fiz assim:


@Repository("horarioDao")
public class HorarioDao extends Dao<Horario> implements IHorarioDao {

    @Autowired //injeção via set
    public HorarioDao(SessionFactory sessionFactory) {
        super(Horario.class);
        setSessionFactory(sessionFactory);
    }
}

Nesse caso, a classe Dao estende HibernateDaoSupport, causando o conflito mencionado. A solução: criar um construtor que receba a SessionFactory que você carrega uma vez no seu contexto de dados como parâmetro e marcar o construtor como @Autowired para que a injeção seja feita dinamicamente pelo container. Além disso, dentro do construtor invoque o setSessionFactory(que é herdado) passando o objeto. Voilá! Problema contornado!

Conclusão

Martin Fowler diz que bom código não é aquele que computadores entendem, mas sim aqueles que humanos possam entender. Assim, anotando seus atributos/métodos/construtores a serem injetados você está facilitando a vida de quem irá ler o código futuramente, tornando o aprendizado do seu código mais rápido. XML´s são ótimos, não me entenda mal. Mas você deve se preocupar se começa a existir uma dependência grande de xml no seu projeto e as configurações são gigantescas.

Claro, conflitos ocorrem, como você pôde notar no caso do HibernateDaoSupport, mas a técnica de contorná-lo é bem esperta também! De qualquer forma, o uso do HibernateDaoSupport é desencorajado oficialmente pelo Spring desde a versão 3.0. Mas esse é um assunto pra outro post…

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